A BREVIDADE DOS JUSTOS
Um manifesto contra a juventude performática, os excessos e outras formas de estultice.
Odeio frases feitas, adágios e ditos populares. Com todas as forças do meu ser. Mas para uma em específico, faço concessão, por motivos de a chinela da minha mãe ainda possui mira a laser. Às aspas, tântrico leitor:
“Meu filho, tudo demais são sobras!”
Repetida ad nauseam, a velha usava isto para qualquer merda em meu desfavor, sobretudo, para me negar os R$ 50,00 que useira e vezeiramente lhe implorava, nos idos e benditos anos 90, quando a Brahma custava um mísero real - beijo, FHC!
Convenhamos, a frase parece carregar a profundidade metafísica dum pires. O problema é que, como toda obviedade, ela também carrega um naco de verdades - e bem difíceis de serem engolidas. Porque, sim, há coisas cuja grandeza reside justamente em sua brevidade: um gole de cerveja estupidamente gelada, num sábado senegalesco; a primeira garfada numa buchada de bode, na feira livre de Bom Jesus da Lapa; o apito final, quando o Bahia, contra todos os prognósticos possíveis, não toma um gol imbecil; ou certas músicas, que mal começam e já partem, deixando o vazio como semente.
Senão, pensemos no Haiti, digo, em “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados: com aquela androginia meio à sarau de maconheiro, a música vai construindo um tesão sonoro e, quando você começa a se ajeitar no sofá para o clímax, pronto: a disgraça acaba, de súbito.
Depois de largar um “Jurei mentiras e sigo sozinho…”, antes que a gente tenha tempo de absorver e assumir a falência moral, o miserável do Ney dá tchau e bênção.
Ou ainda na lindíssima e consternadora “A Rita”, de Chico, pequena iguaria de ruptura amorosa, que ainda leva meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos e o meu coração, especialmente na doce voz de Maria da Graça. “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want”, dos Smiths e sua tese de doutorado em melancolia aplicada, um achado de sofisticação que encerra o álbum “Hatful of Hollow” e que foi usada como trilha sonora do filme “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off).
Todas com menos de três minutos. Menos tempo do que muita gente gasta escolhendo filtro para parecer menos feia no Instagram, do que se leva para desmascarar quem diz ter entendido “Also Sprach Zarathustra” ou do que eu gasto procurando meus óculos (que, invariavelmente, estão pendurados na minha cara). Ainda assim, essas músicas fazem mais estrago que muita rendition com solo virtuoso de guitarra do, sei lá, Yes - e em 18m41s, dá tempo de buscar as cervejas no galego da esquina, fazer um tira-gosto de linguiça, tremoço e queijo e, com alguma boa vontade, ganhar um boquete pré-treino.
Naturalmente, a juventude, exagerada em tudo o que faz, acredita piamente no contrário. Mas assinto: quando jovem, também supunha que, para ter algum valor, qualquer coisa precisava durar muito. Festa só era boa se tivesse virote, conversa entre amigos, só se terminasse com alguém chorando, amor tinha que render tragédia, reconciliação, vergonha, ameaça de suicídio e uma carta escrita à mão, com a cabeça da Bic toda mastigada. Sexo, então, só era bom, se fosse na base do Tantra, quando eu saía do quarto exigindo medalha, isotônico e uma entrevista pro Fantástico. Pelo menos, não dava dinheiro pra ganhar uma camiseta e alardear participação.
Divago: nos meus já olvidáveis trinta e poucos anos, protagonizei as tais maratonas de quatro horas. E se a desconfiante vossença duvida, pergunte à costela, que não me deixa mentir sozinho. Quatro horas, repito, para que o absurdo se imponha com a necessária ridicularização. Hoje, isso me remete menos a erotismo e mais a sentença cumprida em regime semiaberto. Na época, é claro, arrotava macheza e me achava o Aquiles do sertão, exemplar de virilidade nordestina, capaz de virar madrugadas mergulhado no lindo lago do amor.
Quando lembro, tenho ganas de me desculpar com as envolvidas, sejam elas as mulheres ou as roupas de cama - estas, aliás, teriam tido fim mais digno se tivessem sido queimadas depois, tamanha a falta de objetividade. Quatro horas, minhamigo: é tempo para assar uma costela, fazer um guisado de bode, ouvir um álbum duplo do Pixinguinha, brigar (e se reconciliar) com parente por causa de política, beber, cair e levantar. Quem precisa de quatro horas para chegar a algum lugar, está morto por dentro - mesmo que nu.
A maturidade escancara uma verdade que adolescente algum aceita sem dar piti: duração e qualidade são parentes longínquos fingindo intimidade. Se seu/sua companheiro(a) precisa de quatro horas pra atingir orgasmos, invista em tecnologia assistiva (boneca, vibrador et cetera). Porque há coisas que não são apenas longas, mas insuportáveis: reuniões às sextas-feiras, missas de qualquer ordem, discursos políticos e certos relacionamentos que já deveriam ter acabado na primeira DR. O bom, muitas vezes, tem a decência de não se alongar demais, pois reconhece a hora de desexistir - beijos, Tom Zé!
Talvez por isso, a atual preguiça de performar que me consome pareça menos uma perda e mais uma conquista. E digo isso com toda a consideração do planeta, porque a palavra “preguiça” carrega injusta fama, como se descansar fosse um vício. Preguiça, pra baiano, é mato: é experiência, é sabedoria, é gestão estratégica do próprio corpo. À meia idade, o sujeito começa a compreender que certos heroísmos são desnecessários ou apenas idiotas. Um deles, é insistir em demonstrar vigor quando o que se deveria almejar é eficiência, os finalmentes e a possibilidade de dormir tranquilos no pós-coito. Se nenhum dos dois precisar acionar o SAMU depois, já estamos no lucro.
Quinze minutos bem conduzidos, com cumplicidade, graça, algum repertório e zero necessidade de se provar a comissão examinadora, valem mais que quatro horas de coreografia, suores e gemidos desesperados, de quem já está precisando trocar o lubrificante por Hipoglós. Um quarto de hora pode parecer pouco, mas também pode ser uma pancada certeira pra quem sabe lambutar (sic) se despindo de vaidades e trabalhar sem precisar de adicional por insalubridade.
Naturalmente, haverá quem torça o nariz. Sempre há: o mundo está cheio de bedéis da performance, esse povo que mede a vida em dígitos no smartwatch, auditando a própria felicidade: quantas horas, quantas vezes, posições, calorias, orgasmos, quantas tentativas de provar que você não virou um tiozão com o joelho fudido que, no primeiro canguru perneta, vai parar no hospital. A estes, ofereço minha mais sincera dose de solidariedade e um vidro de Calcitran B12.
Já passei dessa fase. Hoje, meu erotismo tem menos pretensão performática e mais pragmatismo baiano: faço direitinho, com dignidade e prazer mútuo - juro! Depois, cada um que levante e vá beber sua água, porque hidratação na meia-idade é fundamental. E a música sinaliza isso, aos ouvidos mais atentos: elas chegam, fazem o serviço, deixam o indefectível e barato olor de Avon e se vão, sem a cafonice de ficar perguntando “foi bom pra você”, feito adolescente imberbe.
E talvez a juventude seja mesmo isso: a incapacidade de reconhecer que o excesso, muitas vezes, é só insegurança. A gente alonga o que teme perder, repete o que teme ter errado e insiste no que já foi porque não suporta o silêncio posterior.
Por isso, mesmo tendo sido a maior vítima de sua sanha persecutória em me lembrar que eu não era todo mundo, agradeço à minha mãe e à lição de vida por ela repetida, com impecável estoicismo: “tudo demais são sobras”. Apenas os esquecíveis pedem prorrogação, aditivo e exigem renovação automática. Longe de nos transformar em bobalhões performáticos, a maturidade oferece-nos a elegância necessária para encerrar ciclos: uma música, uma noite, uma conversa, uma transa, uma ilusão. Ou uma crônica, que já se arrasta muito mais do que deveria, foda-se.
Depois de misturar foda e fôlego por tempo demais, hoje prefiro reverenciar as pequenas durações musicais, os beijos pontuais, os prazeres sem cronômetro e as noites que terminam com a lombar intacta.
O curto, meus caros, se basta. E quando não se bastar, bem...



