A REGRA É CLARA
Uma ode aos carregadores de piano
Atenção, populacho ignaro, para a homilia que se segue, dado que controversa e meditabunda. Às aspas:
O futebol não pode seguir, cega e irrestritamente, todas as regras da sociedade, porque precisa conservar o que ainda resta de Coliseu.
Fecha aspas.
Digo-o sem o entusiasmo homicida dos imperadores romanos e, sobretudo, sem qualquer desejo de ver um cidadão devorado por leões, conquanto certas arbitragens consigam estremecer o que me resta de convicções humanitárias. Refiro-me ao Coliseu enquanto representação, espaço apartado da vida cotidiana, onde uma sociedade reúne todas as suas pulsões, dá-lhes forma, símbolo e duração, permitindo que a violência difusa que carregamos dentro de nós mesmos, sem qualquer garbo, adquira começo, meio, fim - e, em raras e felizes ocasiões, um gol aos quarenta e oito do segundo tempo.
Há quem suponha que a civilização avance à medida que eliminamos nossos vestígios de brutalidade, até atingirmos o estágio higienizado e “superior” da espécie, em que cinquenta mil pessoas assistem a um clássico sentadas, sóbrias, asseadas, joelhos paralelos, aplaudindo o belo passe adversário e pedindo respeitosamente ao árbitro que, por obséquio, reconsidere sua decisão. Graças a algum desarranjo entre o córtex e o cu, essa gente crê que paixões possam ser submetidas às regras de etiqueta dum chá inglês, como se o torcedor que passou a semana toda pegando buzu lotado, ouvindo nheco-nheco do chefe, desaforo do gerente e aperto de mente em casa ainda tivesse que chegar no domingo praticando escuta ativa com o centroavante rival - o Bahia até já teve um desgraçado que fazia isso no elenco, mas graças a todos os orixás, este foi devidamente defenestrado para a (conchin) China.
Divago: é que o estádio existe, entre outras razões, para que o verbo “desopilar” saia do Aurélio para a vida.
A catarse nasceu ligada à representação. Aristóteles foi quem percebeu, há um bom par de milênios, que a tragédia mobilizava medo e piedade, conduzindo o espectador através do horror para, ao final, devolvê-lo ao mundo, fazendo-o experimentar todas essas paixões por meio da obra.
Mas catarse depende de forma. O sentimento precisa ser encenado, concentrado e conduzido até que algum tipo de resolução se estabeleça. E é precisamente isso que o futebol faz com o conflito.
Durante noventa minutos, onze homens representam uma comunidade, suas memórias, humilhações, grandezas, ressentimentos, bairros, classes, mortos, pais, filhos e desafetos. A camisa transforma pernas-de-pau de aluguel em depositários duma história que começou antes deles e continuará quando pendurarem as chuteiras. O campo delimita a guerra, o árbitro estabelece os limites, o relógio marca a duração e o apito final encerra, temporariamente, a licença concedida à insanidade coletiva.
É um simulacro de guerra: equivale em forma à batalha, sua linguagem, tensão, exércitos, bandeiras, territórios, cânticos, heróis, traidores e cadáveres metafóricos, o que nos preserva da inconveniência de enterrar gente de verdade - desde, é claro, que o árbitro tenha amor à vida.
O problema começa quando alguém de fora, ótimo em observar, péssimo em sentir, vê toda essa energia e conclui que o futebol “precisa ser civilizado”.
Primeiro, retiram-se os palavrões: afinal, uma criança pode ouvir. Depois, as provocações, porque o adversário merece acolhimento. Em seguida, a pressão da arquibancada, já que pode afetar a saúde emocional do torcedor visitante. Quando por fim nos dermos conta, o estádio ter-se-á convertido num teatro, com telão 4K, experiência premium, reconhecimento facial, hambúrguer de 90 reais e um público que passa metade da partida filmando a si mesmo com o iPhone 25 Pro Max.
Então, a paixão que presta passa a ser a que não atrapalha a transmissão.
É uma lógica que coaduna com o futebol contemporâneo, com a indústria que transformou clubes em ativos, torcedores em consumidores e atletas em peças publicitárias. O espetáculo precisa circular sem ruídos culturais excessivos, devidamente higienizado para que patrocinadores, fundos de investimento e famílias “de bem” tenham uma experiência segura, organizada e administrável. Excessos até podem aparecer nos vídeos promocionais, desde que sejam coreografados, enquadrados e terminem a tempo de o locutor anunciar a oitava casa de apostas.
Sói que o futebol asséptico carrega dentro de si o germe da própria irrelevância. Retire-lhe a animosidade, o pertencimento irracional, a memória afetiva e o risco emocional, e restará um jogo tecnicamente vistoso, no qual vinte e dois milionários perseguem uma bola por razões completamente alheias. Pode ser bonito? Pode. Só não será (jamais!) motivo para alguém verter água dos olhos.
Convém lembrar aos céticos: religião alguma jamais foi erigida sobre o que quer que se pareça agradável. Toda paixão coletiva exige algum grau de desrazão (beijo, Caetano!). Destarte, não se pode amar um clube mediante análise comparativa de desempenho, governança, rentabilidade e perspectivas de crescimento - embora os mandatários insistam em fazer crer que “sim, é possível medir paixão na planilha”. Esqueçam: vínculos clubísticos nascem por herança, acidente, geografia, rebeldia ou absoluto desgosto familiar. O pobre-diabo recebe uma camisa ainda na infância, vê o pai amaldiçoando um zagueiro, aprende uma música cuja letra sequer compreende e, quando percebe, já entregou parte considerável de sua estabilidade emocional a uma instituição que escala mal, contrata pior e ainda acha razoável renovar com o lateral que arruina todos os seus domingos desde o começo do campeonato estadual.
A irracionalidade, neste caso, cumpre função social: assegura pertencimento num mundo que dissolveu quase todos os outros em contratos, perfis e senhas. O estádio oferece corpo à comunidade que se irmana: gente que jamais trocaria um “oi” na rua abraça-se após um gol, xinga em coro, chora a mesma dor e, durante alguns instantes, experimenta uma raridade social e política chamada “nós”.
E, aqui, peço-lhes vênia: todo “nós”, evidentemente, fabrica um “eles”.
Eis a parte que os bedeis da assepsia preferem ocultar, porque toda comunidade se define também pelas fronteiras que estabelece. À torcida adversária, o setor do estádio que podemos atingir - notadamente, com copos de cerveja, sacos de mijo e afins. A torcida inimiga representa o elemento contra o qual a nossa própria identidade se afirma. Sua presença traz densidade ao confronto, seu cântico irrita porque disputa o domínio simbólico do mesmo espaço que ocupamos e, por fim, sua derrota engrandece nossa vitória. Sem antagonistas, o torcedor até pode celebrar, mas perde um prazer muito mais complexo, que é o de prevalecer - daí, ser contra jogos de torcida única, embora não saiba exatamente o que fazer para resolver o problema dos descerebrados de Pindorama.
E, por prezar tanto os antagonistas que, nesse ponto, faço questão de exaltar os catimbeiros, os milongueros, os carregadores de piano que entram em campo para realizar o desagradável trabalho sem o qual o lirismo morre antes. Anote aí, o vaticínio definitivo sobre o tema:
Toda equipe vitoriosa necessita de alguém capaz de compreender que uma partida também se joga no medo, na irritação, no controle do tempo e na dúvida, até que o adversário passe a jogar contra si.
Diego Simeone, por exemplo, construiu uma carreira inteira nesse território - dentro e fora dos campos.
Sua contribuição ao futebol ultrapassa a caricatura do treinador que berra, gesticula e discute até com os gandulas à beira do gramado. Simeone compreendeu que uma equipe pode organizar-se em torno de uma confraria de sofrimento, transformando limitações técnicas, desigualdade financeira e sensação de perseguição em identidade competitiva. Seu Atlético joga sempre como o underdog, com cada cobertura, cada dividida, recuo e contra-ataque participando duma narrativa segundo a qual o mundo sempre favorece os outros - e, justamente por isso, cada palmo precisa ser disputado com dentes, suor e sangue.
O cholismo oferece aos jogadores uma razão para a dor, e quem encontra sentido no sofrimento suporta formidáveis quantidades dele.
E os colchoneros reconhecem-se nessa ética porque ela reproduz, em escala esportiva, uma experiência social amplamente conhecida: a de enfrentar estruturas mais ricas, belas, celebradas e alegadamente destinadas à vitória. Simeone transforma a inferioridade material em superioridade moral (alô, Friedrich!), recurso perigosíssimo quando aplicado à política, mas extraordinariamente eficiente numa eliminatória de Champions League.
O milonguero administra essa mesma energia dentro do campo. Ele sabe que o tempo cronológico e o da partida são completamente diferentes: que trinta segundos podem evaporar numa cobrança de lateral qualquer ou durar uma eternidade na espera pelo VAR. Percebe o instante em que uma reclamação coletiva altera o critério até então adotado pelo árbitro. E identifica o adversário cuja vaidade permite uma provocação bem colocada, um puxão de cabelo, uma fungada no cangote. Sua arte consiste em interferir nos acontecimentos sem aparecer nas estatísticas - vício de quem tenta explicar o jogo pelo Excel e acaba perguntando, vinte anos depois, por que certas equipes cheias de excelentes indicadores nunca ganharam porra nenhuma.
Foi exatamente esse rebaixamento estético que Carlos Caetano Bledorn Verri sofreu por anos.
A mitologia brasileira, apaixonada pela imagem do gênio que resolve uma partida com a displicência dum Zé Carioca acendendo cigarros, sempre teve dificuldade em reconhecer a inteligência do esforço - como se correr, marcar, organizar e liderar fossem compensações oferecidas apenas aos desprovidos de talento. Dunga foi convertido no símbolo de um Brasil supostamente menor, pragmático, estrangeirizado, quase um pardonnez-moi pela Copa de 1994. Este raciocínio esconde uma atitude deveras soberba do torcedor brasileiro: foi justamente por não termos um Gentile no elenco que o Brasil de 1982 voltou para casa de mãos abanando. E foi também por isso que Guardiola, fã incondicional do supracitado escrete, passou 12 longos anos sem vencer uma Champions League sequer: que os craques bastariam.
Tornemos a Dunga: vinte e quatro anos após ter levantado a sua terceira Copa, o Brasil precisava de Romário - evidentemente, toda guerra requer quem saiba atirar. Mas também precisava (e hoje, é bastante confortável admitir) de alguém que sustentasse a parte menos fotogênica dos embates: encurtar espaços, recompor, cobrar, orientar, combater, apontar dedos e carregar a responsabilidade nas costas, sempre cônscio de que jamais viraria o favorito da torcida.
Pois Dunga ergueu a taça, e o país passou décadas tentando podar-lhe o direito à fotografia, talvez porque sua presença contradiga um ufanismo muito brasileiro: o de que vencer é apenas consequência natural do talento. Dunga nos faz lembrar que, sobre toda bela obra repousa uma indecorosa quantidade de trabalho pesado, disciplina, renúncia e ralação - e isso jamais entrará no vídeo celebratório. O artista pode decidir uma final, mas alguém precisa garantir que haja uma final para se decidir.
Enzo Fernández é outro. Este pertence a uma variante, digamos, mais perigosa dessa linhagem: porque reúne a técnica do protagonista e a febre do catimbeiro, uma combinação que tanto pode incendiar o adversário, quanto consumir seu próprio time. Ele joga numa intensidade tal que parece sempre prestes a virar ocorrência policial. Na final de 2026, ele passou da conta e recebeu o segundo amarelo nos acréscimos, deixou a Argentina com dez homens e ofereceu uma inequívoca demonstração da tênue linha do saber administrar a violência e por ela ser administrado.
Eis a tragédia particular do milonguero: sua virtude e sua ruína bebem rigorosamente da mesma fonte.
Quem assume a hostilidade coletiva precisa dar-lhe direção. Quando consegue, torna-se a espinha dorsal da equipe. Quando fracassa, imediatamente vira o epítome da derrocada. A paixão, que deveria ser conduzida, transforma-se em descontrole, a guerra deixa de ser simbólica e o gladiador descobre, geralmente tarde demais, que pode morrer pela mesma espada que maneja. Dunga em 1990. Enzo em 2026.
É por isso que, como coragem não equivale a correr desabaladamente em direção ao abismo, catimba não é sinônimo de porrada. Catimba exige leitura de jogo, cálculo de riscos, domínio de si e do campo, numa compreensão quase teatral do espetáculo de arena que é o futebol. O grande milonguero atua para o árbitro, para o adversário, para a torcida e companheiros, modulando cada gesto conforme a plateia com que interage. Ele representa a fúria, sem jamais se poder deixar possuir inteiramente por ela.
Figuras como o pivete acima incomodam porque expõem a hipocrisia fundamental do futebol civilizado: todos desejam intensidade, desde que ninguém pareça agressivo. Todos celebram a competitividade, desde que ela venha acompanhada de modos e de fleuma. Todos exigem jogadores capazes de morrer pelas suas cores, conquanto se escandalizem quando estes demonstram que a metáfora possui, sim, relação direta com a violência.
Queremos gladiadores, portanto - adestrados pelo RH, vá lá, mas gladiadores, ainda assim.
“Ain, mas o sinhô esquece que a Espanha não dá pontapé e…”
Atente bem, incircunspecto cidadão: a campeã de 2026 pode até parecer, aos intelectualmente menos favorecidos, a refutação dessa tese. Seu futebol oferece a prestigiada imagem da racionalidade contemporânea, com domínio técnico, ocupação inteligente dos espaços, circulação paciente, controle e serenidade que fazem a bola sempre parecer obediente. Seria tentador enxergá-la como vitória definitiva da civilização sobre a milonga sul-americana, especialmente depois de derrotarem a Argentina numa final em que o excesso portenho terminou punido.
Olvidam-se, porém, do lateral que enverga a camisa 24 da Fúria. Marc Cucurella constitui a pequena rachadura por onde a inescapável verdade sempre escapa (sic).
Por trás da cabeleira à Bethânia e da cara de quem madrugou num Doron R2, habita o tipo de jogador que toda equipe excessivamente bem composta necessita “esconder” n’algum canto do elenco. Cucurella persegue, encoxa, insiste, reaparece, interrompe, cobre, provoca, disputa a primeira, a segunda, a terceira e, havendo oportunidade, disputa até com o gandula. Sua presença traz a necessária impureza ao inconspurcável relógio suíço, digo, espanhol.
Porque toda ordem precisa de um pouco de caos.
A Espanha pode controlar a bola, o espaço, o ritmo, reunir jogadores capazes de desmontar defesas por meio de estratagemas e triangulações que fariam Pitágoras esquecer o teorema. Em algum ponto do jogo, contudo, alguém precisará ganhar uma dividida, desacorçoar um ponta, fechar o corredor, sofrer uma falta, dar um carrinho moralizador e fazer o adversário perceber que a finesse espanhola tem unhas.
Cucurella cumpre a função sem a solenidade de Dunga, a dramaturgia de Simeone ou a autocombustão de Enzo Fernández. Ele é o milonguero perfeito, porque ninguém, exceto seus compatriotas, dava nada pelo cara: parecia ter entrado por engano no sobejamente (beijo, Collor!) talentoso elenco espanhol, mas terminou segurando o maior troféu do esporte.
O futebol seguirá vivo enquanto conservarmos o pacto com a representação da guerra, da violência interpretada e da paixão escandalizante. Ao soar do apito final, devolvam-se, pois, os combatentes à vida civil, mesmo que alguns destes oponentes precisem de escolta para chegar ilesos ao vestiário. Civilização alguma se mantém de pé, se não puder contar com seu próprio rincão de bárbaros.
Como Marc.
Se retirarmos o conflito para proteger o espetáculo, o que restará já não contará com estádio, torcida, memória ou pertencimento. Bastarão uma câmera 8K, vinte e dois profissionais socialmente cônscios e um algoritmo capaz de metrificar a emoção de cada atleta para seu mercado consumidor. Será limpo, seguro e rentável. Aí, quando o último bárbaro tiver sido expulso do estádio, o futebol estará, finalmente, civilizado.





