A TEOLOGIA DO DESPACHO
Como o ocidente católico transformou ritual em álibi e memória em olvido.
Por ocasião da morte de uma pessoa próxima, há menos de um ano escrevi uma crônica criticando a atitude quase calhorda de quem perdia um parente, esgoelando-se performaticamente por sobre o caixão, em cena tão teatralizada quanto impostora, vez que, enquanto este ainda respirava, o morto não recebia a menor atenção do artista. É uma visão ocidentalizada do luto, admito, essa coisa de tratar a morte como contumaz criminosa, quando mais justo seria tê-la como consequência das nossas escolhas e entendê-la como participante da vida de qualquer um.
E, sói esclarecer: quando falo de escolha, não me refiro à caricatura liberal do indivíduo soberano, sentado diante de seu destino, como quem escolhe recheio de pastel. Falo de escolhas em cadeia: familiares, médicas, políticas, urbanas, econômicas, históricas, íntimas. Escolhas feitas por nós, contra nós ou antes de nós, mas que, de algum modo, vão arrumando a mesa onde a morte se senta.
Rotulem-me de ingênuo, se quiserem, mas creio não estar só no ensejo. Stephen Jenkinson, um estudioso canadense do tema, ligado aos cuidados paliativos no Mount Sinai Hospital, em Toronto, e figura central do documentário Griefwalker (gratuito pra ser visto aqui) é um dos que advogam em favor da morte vivida sem negação. Ele definiu assim o luto, em entrevista publicada no DailyGood: “a disposição de ser tomado por uma história maior do que aquela que você desejava”.
Ou seja, a capacidade de deixar que a realidade, inclusive a insuportável realidade da morte, desmonte a fantasia infantil de controle que todos temos. Quer chamar de resignação?, be my guest. Fato é que a morte é um pedaço indelével de nossas vidas: cedo ou tarde, todos perderemos pai, mãe, avós, parentes, amigos ou alguma versão de nós mesmos que nem mereceria enterro. Só que, ao contrário do que pensam os mais obtusos e radicais, a morte não é o fracasso da vida: a cultura urbana moderna tende a tratar a morte como um erro de continuidade, uma derrota clínico-hospitalar, uma interrupção injusta ou um escândalo privado. O que Jenkinson faz é inverter isso: morrer não é um acidente no caminho da vida, mas uma das formas pelas quais a vida se completa, encontra sentido e revela o que foi (ou não) amado.
O que não faz qualquer sentido é termos vergonha da morte e nenhuma vergonha do costumeiro abandono que a antecede. Escondermos o moribundo no hospital, o velho no quarto, o doente da atribuladíssima agenda familiar, para depois, em falência múltipla de vergonhas, disputarmos no velório o Oscar de melhor pranto coadjuvante, quase implorando para ser enterrado junto.
Tudo isso é bastante mais degradante. Porque o luto, em si, não é uma doença ou um defeito: é uma forma de (re) conhecimento e o preço que precisamos pagar por ter amado alguém - beijo, Žižek. Como raios poderia querer livrar-me do luto de quem amei, se isso é uma forma de manter vivo quem já não pode comigo estar?
O ocidente católico moderno não esquece os mortos por ausência ritualística, mas porque o ritual se torna álibi para a ausência em vida: o choro público para compensar o abandono, a reza compungida no féretro, a frase piedosa para encobrir as negligências e o funeral para enterrar desculpas. “Descansou”, dizem - e isso só serve para que ninguém lhes cobre responsabilidades sobre o morto.
Outra coisa: a morte precisa voltar à vida comunitária. Morrer e enlutar-se não deveriam ter se tornado processos privatizados. Ao empurrarmos nossos moribundos para hospital ou funerária, deixamos de zelar por eles e acabamos por terceirizar o que é inevitável - por medo, angústia ou desesperança, que seja. E morrer bem, segundo Jenkinson, não é uma escolha, mas uma “responsabilidade moral, política e espiritual, diante dos ancestrais e dos nossos herdeiros”.
Aí, puxo para exemplos claros de que, sim, isso é possível, desde que topemos nos despir de certezas, preconceitos e sabedorias de araque. A Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira-BA, por exemplo: trata-se de uma tradição afro-católica made in Recôncavo, nascida de uma história específica de escravidão, devoção, irmandade, resistência, ancestralidade e festa. Jenkinson diz que a modernidade perdeu a competência comunitária para morrer e a Boa Morte mostra uma cultura que, apesar de todo o açoite histórico, preservou memória para lidar com a morte, a passagem, o luto e a celebração. Na Boa Morte, a vida não termina em abstração, nem evangelho do pau oco. A morte desce à rua conduzida por mulheres negras, veste roupa, acende vela, convoca ancestrais, prepara festa, comida, canto, samba de roda e partilha. Isso é belo, porque comida é uma das mais antigas formas de congraçamento: uma comunidade que sabe comer e beber por seus mortos talvez detenha em si mais religiosidade que muito presbítero, que promete a eternidade enquanto prega esquecimento.
E como a irmandade de Cachoeira, há culturas ao redor do mundo que tratam a morte de maneira menos acidental e mais à moda causa e consequência. Mexicanos, ganenses e povos papuásios, por exemplo, com seus altares, caixões decorados, fotografias, comidas, flores e mortos convidados de volta à casa, talvez compreendam algo que nosso cristianismo domesticado desaprendeu: morto não deve ser superado, mas celebrado. Não há escândalo algum, portanto, em conviver, beber e comer por eles ou levá-los à rua em procissão coreografada.
Escândalo é uma sociedade que se diz civilizada e devota da vida eterna tratar seus finados como despacho, depois de passar a vida inteira arrumando a mesa onde a morte se senta pra, no fim, fingir surpresa quando ela resolve pedir o prato.
Marcone H. de Sousa é baiano, cronista, acredita que o grande mal escondido por trás da I.A. é o absurdo uso que fazem da mesma como terapia, admite escrever pior que a mesma, mas já tinha 3 livros publicados quando o chatGPT ainda era só mato.
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