CABAMACHO #6
Buscar o conhecimento é prova de amor tão inconteste quanto o ato de cozinhar.
Esfomeado leitor, jejuante leitora,
É com denodada satisfação e suspicaz entusiasmo, que abro este excerto com um registro autodepreciativo - porque, socrático ao limite do insuportável, sei que nada sei. Recebam a pedrada, pela caixa dos peitos:
O fato de ser escritor autodidata diz menos sobre o gabarito que possuo na matéria e mais sobre a minha completa incapacidade de fazer um “O” com um copo, no que a diversos assuntos concerne.
Escrevo não porque me sinta seguro ou capaz, mas porque possuo um comichão, um incômodo, um pequeno “cramunhãozinho” vivendo sobre os ombros, instigando-me ao ofício de umedecer alheios orifícios através da peia, digo, da pena. Peço adiantadas escusas ao mulherio que frequenta estas plagas, mas precisarei ser bukowskiano para ilustrar quão incômodo é o comichão que sinto: sabe quando chega o calor e o suor umedece e torna quase pantanosas as nossas partes íntimas? Assim. É, pois, justo e necessário enfiarmos os dedos indicador e médio nas cuecas até que tenhamos escrutinado toda a nossa dignidade, junto com dois ou doze chatos que geralmente nos infestam as paragens.
Mas, dizia eu, autodidata, daqueles que fazem do escárnio um panfleto, por entender que telhados de vidro, convenções morais, posições éticas, condições sociais, totens morais e status quo não devem jamais ser preservados, mas combatidos e, um a um, destruídos, dado que mentiras inventadas para manipular e afastar o homem de seu objetivo-mor, qual seja, a busca da felicidade pela prática do autodomínio e liberdade plena (beijo, Diógenes!). O mundo já anda cheio demais de vendedores de ilusões, farialimers e venerandos do IGPM, o Índice Geral Performático da Militância® (patent pending).
Escrevo sem jactância, não para afagar egos e superegos, mas socializar o prurido. Comichão este que se me acomete todas as vezes em que o final de semana bate à porta, porque igualmente autodidata na labuta alquímica do cozinhar - o que é uma forma pseudo-erudita de dizer que minha mulher não frita um ovo e minhas filhas, se eu não pilotasse o fogão, morreriam de fome. Mas piloto e, maná de vaidades, as pequenas adoram as invencionices que hodiernamente entrego.
Já andei preparando pratos de tantos lugares e tão diferentes entre si (ibéricos, chineses, árabes, judeus etc.) que, qualquer dia desses, não me surpreenderei de receber um convite das Nações Unidas para apaziguar as contendas lá fora.
Divago, delongo - e teus orifícios oblongo: o ato de cozinhar não pode, em si, ser um totem moral. Coisas que o comichão perpetra. Por óbvio que regras básicas de alquimia precisam ser respeitadas em qualquer processo de cocção, mas é fundamental conservar olhos, ouvidos e papilas abertos a influências, regionalismos e experimentações. Já se perguntou, por exemplo de onde veio o lomo saltado? Se respondeu Peru, errou. E a pizza com abacaxi, que atribuem aos havaianos, mas que foi inventada noutras paragens? Fato é que o protecionismo culinário é uma estupidez que nos impõe limites visando uma pureza injustificável e, no mais das vezes, inalcançável.
Também não é para sair chamando qualquer sopa de peixe de moqueca, alto lá. Espera-se, do alquimista eleito, um mínimo de zelo e comprometimento com as mais diferentes texturas, sabores, aromas e picâncias, no afã de entregar além do que o prato original jamais poderia supor.
“Sim, mas o sinhô foi, voltou, debreou e, até agora, num entregou porra nenhuma. Essa crônica é Cabamacho ou Reminiscências?”
Acalme-se, adepto do fast-fode. É graças a essa sua incontrolável ejaculação, digo elaboração precoce que as coisas hoje degringolam a ponto de ninguém mais ter a paciência necessária para se obrar um cozinhado lento, a fogo e fleuma. Mas admito que há benesses na urgência da informação. Como connaisseur gourmand, me encanta pesquisar todos os dias por novos e talentosos chefs, espalhados pelo mundo, com as mais diferentes técnicas de forno e fogão.
Como a venezuelana María Isabel, que trata de amaciar muy bien la carnita, antes do preparo.
Ou a americana Zuri Rose, uma mulher de inconteste talento no manejo de embutidos, como a fotografia abaixo atesta muitíssimo bem.
Instado pela Zuri, aliás (e com o devido empurrãozinho da minha costela, como se verá), expandi meus horizontes recentemente, ao arriscar-me na obra de um prato bem diferente, no último domingo.
Explico. Sexta-feira, como de hábito, realizava minha useira e vezeira excursão gastronômica após as 23h, com esposa e filhas já a dormir: smartphone numa das mãos e a outra a escrutinar os genitais - como é de notório conhecimento dos caríssimos leitores, faz muito calor cá pelas bandas do sertão da Bahia. Lá pelas tantas, entusiasmado com a peitaria, digo, a prataria da moça, minha esposa estranhou aquela inquietude de pernas e indagou:
“Mas o que diabos você tanto vê nesse celular?!”
“É pesquisa gastronômica, criatura…”
A cara de pouquíssimos amigos com que ouviu minha justificativa não deixava dúvidas: a morte se avizinhava, era mister agir com cautela. Resulta que, por este nobre motivo, lancei mão de meus dotes culinários cosmopolitas e obrei uma deliciosa Cachupa: um guisado feito com milho, feijões e carnes diversas, de origens africana e indo-portuguesa, da ilha de Cabo Verde e direto influenciador do nosso mungunzá salgado.
Ao fim e ao cabo, embora ame o saber e empreenda diárias perquirições (gostou do perquirições?) no afã de romper as barreiras de minha própria estupidez, ser autodidata não é virtude, apenas uma coceira incontrolável: a gente aprende, na base da tentativa e erro, mas correndo sincero risco de, um dia, acordar emasculado.
Isso que é amor ao conhecimento.





