CABAMACHO #7
Porque nem todo mundo nasceu pra Nana Caymmi
Atenção, lânguido leitor, excitada leitora,
Os atuais, curiosos e tragicômicos tempos em que vivemos escancaram absurdos dos quais nem a morte escapa do pendor performático, como se a estupidez humana (suficientemente prolífica, sói esclarecer) tivesse se especializado em roteiros que fariam até redatores de programa policial, no estilo do finado “Linha Direta”, pedirem demissão. Eis que me deparo com a “notícia” duma sujeita que, num auge de extrema confiança genital, selou o destino do ex-marido com uma combinação de erotismo e pesticida, aplicados com requintes estratégicos na única parte do corpo que o agora defunto julgava imune à auditoria: o xibiu.
Venhamos e convenhamos, o desejo é um conselheiro de merda: desde que o primeiro primata resolveu correr atrás d’outro com intenções mais esfregativas que filosóficas, que a história da humanidade é, em larga medida, um desfile de decisões tomadas com a cabeça do pau, não com a pensante, ocasiões em que vira mera coadjuvante, enquanto a libido assume o volante - rimou, caralho, creio que escreverei um livro infantil qualquer dia.
O que talvez se possa considerar novidadeiro é o nível de sofisticação ensejado no crime, porque não estamos falando dum adultério barato ou de briga de bar: o episódio possui requinte, planejamento e toda uma engenharia que, por certo, exigiu mais riscos e cálculos que muita tese matemática de doutorado, tudo culminando num cenário em que o sujeito, entregue à honesta e patética vulnerabilidade que o inefável acto da chupetcheca nos expõe, não percebeu estar a enfiar a língua onde não deveria - literalmente.
Fico imaginando o pobre-diabo, momentos antes do infortúnio, confiança de quem acha a companheira mais honesta que tadalafila de 20mg, preocupação zero com desempenho abaixo da média - no máximo, teria uma história pra contar no botequim. Porque quando o cérebro do homem tira férias, a gente não baixa só a guarda, desmontamos o sistema por inteiro: desligamos o alarme, arreganhamos (!) as portas e estendemos o tapete vermelho para os maiores perigos penetrarem-nos (!!), de salto agulha. É um festival de ingenuidade, burrice e péssimas escolhas tamanhas que faria coaches legionários corar de vergonha. Mas proseio, protelo - e teus intestinos martelo.
Escolado na sacrossanta arte do cunnilingus, o elemento foi caprichar na lambuta, deitar língua no gramado, trabalhar na suculência do pastel de cabelo - como, aliás, deve se obrar um bom minete, com a dosimetria adequada de saliva, São Bernardo com hidrofobia. Mas a pérfida criatura tinha planos menos eróticos - e correu, aliás, severo risco de empacotar junto.
O chapéu da “matéria” é insuperável, pela presença de espírito: “Menina Veneno”. A criatura, com tanta possibilidade, resolve aplicar o pesticida não na comida ou na clássica e elegante taça de vinho - o que, ao menos, traria algum glamour ao assassinato. Não: nos grandes e perseguidos lábios, no território onde o homem deposita não apenas desejo, mas autoestima, vaidade e, em alguns casos, toda a estabilidade intelectiva. É o tipo de coisa que, dita num almoço de domingo, fará um rir, outro fazer cara de nojo e um terceiro perguntar se isso daria mesmo certo - porque brasileiro tem um dom quase inato para o crime, de transformar desgraça em tutorial.
Aqui, encontramos o que escancara sermos nós o sexo frágil - o que me traz um comichão pior que o prurido do phthirus pubis. Porque, na verdade, esse sujeito não morreu por envenenamento, mas por aquilo que sempre derruba os homens, de Tróia a Tracunhaém, de Moscou a Mossoró, de Helena a Jaqueline: a xota.
Admitamos, pois, que desconfiamos de quase tudo na vida: bloqueamos o gerente do banco, levantamos suspeita até da própria mãe e ignoramos mensagem de números desconhecidos. Diante dum convite mais, digamos... lascivo, contudo, e viramos carneiros descerebrados, lambendo os beiços e prontos pro abate. Se o ensejo envolver bunda volumosa, feromônios em polvorosa e uma cosquinha na cabeça da lustrosa, quedamo-nos mesmo perdidos - e sim, yo alitero porque quiero.
E nem adianta você, desconstruído, querer pagar de diferentão jurando que é exceção: o mecanismo que faz gente entrar em ciladas emocionais, financeiras e ideológicas é o mesmo, a diferença é que, neste caso, o preço pago foi alto - e com juros, correção e humilhação. É o instinto de preservação da vida dizendo, com todas as letras, sem nenhuma delicadeza, que entre o prazer e o presunto existe uma linha diminuta, estreita, diria quase um fio dental, tênue - por vezes, temperada com raticida.
Como nunca fui exatamente afeito à prudência, confesso que me vi revisitando certas decisões pretéritas, algumas das quais envolvendo ambientes de duvidosa caução, luminosidade ainda mais questionável e decisões que fariam minha versão mais frugal de hoje em dia pedir um voluntário e peremptório transplante de pica. Todo macho que se preze tem no currículo ao menos uma situação em que poderia, facilmente, ter saído duma situação assim com algo (sífilis, gonorreia, clamídia, HPV, herpes genital, HIV etc.) mais que simples e ternas lembranças.
Resta-nos não uma lição edificante, mas a certeza de que, por xibiu, a gente se expõe, se entrega e se humilha, escancarando-nos ao risco, por vezes colocando tudo a perder. Mas, Orson Welles me valha!, é por isso que não somos mais nômades (esqueça o caralho da agricultura), fomos à Lua e não continuamos resolvendo tudo na base da contenda. É por isso também que, estupefacto e de sorrisinho no rosto, com uma falsa sensação de superioridade, você precisa sempre lembrar de um adágio, simples e poderoso: ninguém se acha burro antes de fazer merda.
Sobretudo quando a “merda” lhe sorri, abre as pernas e lhe convence estar diante duma epifania - quando, na verdade, você lambe o próprio epitáfio.
Post-scriptum: sei que a história é mais impostora, embusteira e patranheira que promessa de amores eternos. Já a vi ser contada, mesmos nomes, de Minas ao Maranhão, perambulando pela Bahia e Pernambuco adentro - aí dênto! Mas era boa demais para deixar passar.



