O ROTO E O ESFARRAPADO
Os extremos do cuidado com o corpo nosso de cada dia.
Dia destes, resolvi arriscar minhas chances contra a probabilidade de destruição e esfarelamento, e subi numa balança de farmácia, estrategicamente posicionada ao lado do balcão de remédio pra pressão. Senti que o fatídico aparelho, antes mesmo de mostrar o resultado, estalou e se buliu todo, com o risco de quebra, como quem diz: “maldito gordo!”. Ateu convicto, não creio em almas, mas posso assegurar que aquela balança, em específico, guardava rancor de mim. Pisei como quem atravessa uma pinguela e, quando os números finalmente denunciaram, digo, apareceram, tive a impressão de que a máquina me gritava ao CFM, à Vigilância Sanitária e, principalmente, à fiscalizante costela.
Olhei os dígitos resignada e demoradamente (coisa de quem já não amarra os sapatos sem grunhir, bufar e suar), e pensei no quão cafona se tornou a incessante busca, performática e ligeiramente religiosa, por um corpo “saudável” - sobretudo, quando a tal “saúde” cabe todinha num receituário, como se a existência da gente tivesse que se resumir a IMC, percentual de gordura, índice glicêmico, circunferência abdominal, massa magra, massa gorda e outras tais que, embora úteis ao meio clínico, tornam-se insuportáveis quando cultuadas por quem consome creatina, halteres e espelho mais do que o faz com cerveja, torresmo e falseio.
A nouveau-religion da barriga negativa tem seus santos, mártires e dízimos muito bem marcados. O santo é o influenciador, de sorriso alvo e cabedal argumentativo dum vendedor de suplemento. O mártir é o sujeito que se entope de peito de frango com brócolis no vapor, achando que faz um enorme negócio para sua vida, ao abrir mão da dobradinha. E o dízimo é pago na aquisição de potes enormes de pó “saborizado” de baunilha, chocolate belga, cookies and cream e outros gostos peçonhentos. E nem me venham as lamuriosas vossenças convencer-me do contrário porque, neste prélio, lanço sempre mão da “Teoria das 3h”. Olho no lance:
Ninguém, que não esteja biruleibe das ideias, acorda às três da manhã desejoso de se alimentar de uma água suja de pia “sabor” morango. Picanha, sim. Torresmo, certamente. Whey protein, definitivamente, não.
É mister, contudo, não transformar este excerto numa defesa pública da adiposidade. Ninguém está a propor que tratemos o corpo na base deep-fry do dendê. Não dá pra se entregar ao médico como quem larga um Chevette na oficina, dizendo: “vê aí, o que dá pra salvar, doutor”. O corpo cobra, com juros e correção - sei, porque pago: pressão alta, gordura abdominal, joelhos rangendo feito dobradiça enferrujada, coluna implorando uma trégua e um sem-número de pequenas ruínas que, após os quarenta, começam a aparecer em quem não se cuida. Como eu.
Saúde, porém, é uma palavra ampla demais para caber num único papel de medições fisiológicas. Envolve corpo, mas também sono, convivência, afeto, sanidade mental, trabalho, tristeza, alegrias, desejos, rotinas, família, humor e a inexpugnável capacidade de atravessar os dias sem despirocar a cada garfada dada. O que tem de gente hoje em dia que, ao invés de comer, faz contas, não tá escrito: a criatura vê uma refeição como se numa CPI estivesse, escrutinando a origem do carboidrato simples.
Essa gente esquálida e esteticamente exemplar terceiriza a própria neurose, ao contar calorias e recusar colocar uma colher extra de arroz no prato, como se este tivesse sido beneficiado pelo Sete-Pele. Pra comer uma fatia de bolo, exige-se dos pobres tamanhas penitência e comiseração (sic), que parecem não ter comido uma garfada de anduzada, mas profanado um convento. Não sei se pior é o fato de essa turma se entregar à espartana rotina de treinar seis vezes por semana ou não aceitar um convite para beber porque pulou o cardio e “amanhã tem treino de pernas”.
Chegamos ao ponto em que a zorra começa a me aporrinhar: convertida em performance, a saúde virou uma espécie de moralidade. Uma parada quase ética. Porque o sujeito que se autoimola em nome disso não está apenas em forma: está salvo! O gordo, por sua vez, carrega o julgamento, como se os de sua cepa (cepa, para gordo, é ótimo) tivessem, obrigatoriamente desvio de caráter. Porque o gordo entra no consultório e, antes de alguém lhe dar bom dia, ele já sente o prognóstico arbitrário da nutricionista prescrevendo-lhe alface, abstinência e admoestação, com a barriga de chope virando antecedente criminal.
E na Bahia, essa conversa ganha contornos ainda mais indecentes, porque somos um povo que transformou comida em celebração. Caia na asneira de dizer a uma baiana do acarajé que modere o caruru e controle o vatapá, ou a um sujeito qualquer nascido no verão de Soterópolis que substitua uma moqueca de camarão por rúcula - e, por conseguinte, veja ruir o pacto civilizacional.
Comer, por aqui, é pertencimento, memória, mesa cheia, prato repetido, parente folgado, conversa torta, pimenta ardendo nos beiços e alguém dizendo, suado, que “vai provar só mais um tiquinho”, enquanto bota no prato duas ou doze colheradas. O nome disso? Vida. É o que acontece enquanto contam calorias…
Minha relação com a comida, admito, sempre foi menos terapêutica e mais geopolítica. Não como feijoada porque tenho necessidade, mas por compromisso com a ancestralidade torresmística. Não encaro uma mariscada por demanda proteica, mas porque há coisas que um homem precisa fazer para ver renovado seu “Dendê Card”. Se isso me condena diante da turma que tira foto de marmita de endívia como quem registra a aparição de Nossa Senhora em Fátima, paciência: cada qual com seu calvário. O meu tem feijão de corda, folhas de coentro e bacon.
E a patrulha do corpo perfeito perdeu completamente o senso de razoabilidade. Há gente tratando pão, leite e açúcar como crack. E a cada semana, surge uma nova interdição: ovo pode. “Não, agora, ovo mata”. Café salva. “Bobagem, café destrói!” Carne é potência. “Não, carne é veneno”. No fim, o cidadão comum fica parado diante da geladeira, sem saber se come, se jejua, se liga pro endocrinologista ou se deita no chão da cozinha esperando o arrebatamento, chovendo do olho, feito um putinho.
Pra piorar, ainda há o aplicativo - maldito seja o aplicativo: o aplicativo sabe quantos passos você deu, quantas calorias gastou, quantas horas dormiu, quantas vezes respirou, quantos batimentos por minuto teve ao subir a escada e, se bobear, quantas vezes pensou em mandar o mundo tomar nos entrefolhos. O sujeito acorda e o telefone berra que o sono foi ruim. Meu filho, eu estava lá! Sei que assim o foi, porque levantei 18 vezes para mijar, ora essa. A diferença é que agora, além de dormir mal, sou humilhado por um retângulo luminoso made in China, sincronizado numa pulseira que vibra para me lembrar de levantar, como se eu fosse um presidiário.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano que fez carreira na Alemanha e se especializou em diagnosticar as neuroses do capitalismo, já havia farejado essa desgraça no seu “Sociedade do Cansaço”: saímos de uma sociedade disciplinar, feita de ordens externas, muros, chefes, punições e dedos em riste, para uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito não precisa mais de carcereiro porque aprendeu a se chicotear sozinho, com produtividade, metas, autocobrança e uma satisfação quase artificial. O antigo “você deve” foi substituído pelo “você consegue”. Parece libertador, mas a chibata só fez mudar de mãos: agora, o feitor mora dentro da sua cabeça, usa smartwatch e monitora até quanto tempo você passa cagando. A saúde, nesse cenário, não é cuidado per se, mas uma filial do desempenho, onde até o descanso precisa se justificar em nome d’alguma melhoria futura.
Como diz o autor, “viramos predador e presa ao mesmo tempo”. A exploração ficou perfeita porque, agora, ela é vendida como “realização pessoal” - e ninguém se insurge contra o próprio sonho, não é mesmo?
Como o livro é anterior ao boom das redes sociais, Han sequer avança nas mesmas. Admito, contudo, que o capítulo sobre desempenho me colocou o tempo inteiro a pensar no funcionamento/comportamento de certos apps. A sociedade do desempenho ganhou, no Instagram, uma arena ideal: todos são instigados a ter sucesso, e você compete e compara sua rotina, seu corpo, sua carreira e até seus relacionamentos com gente que você nunca viu (ou verá!) na vida. Todo mundo parece estar sempre fazendo e conseguindo mais que você, o tempo todo.
Não defendo o desleixo, por óbvio. Mens sana in corpore sano é uma filosofia linda e louvável. A pergunta que resume por que esse livro me prendeu, contudo, confronta a necessidade da performance: quando foi que o descanso ou o cuidado com o corpo, viraram atividades que precisam de recibo? A gente não corre/malha/treina porque faz bem, mas para que vejam/saibam que corremos/malhamos/treinamos. Numa sociedade sem Deus (beijo, Friedrich!), criamos novos Templos do Povo, com a estética como nosso Jim Jones. E, bem, todo mundo sabe como essas histórias costumam acabar.
“Ain, aí você já está exagerando e…”
Tá certo: diga isso para Gabriel Ganley, Matheus Pavlak, DJ Macaully e Christian Figueiredo. Reconhecem o padrão criticado por Han ou eu preciso desenhar?
Admito, porém, que ser desleixado é morrer aos poucos e deixar os outros pagando a conta da nossa teimosia. Mas, as provas estão postas, a substituição do cuidado genuíno pela tirania com o próprio corpo é tão ou mais danosa que o desleixo. Cuidar do corpo requer disciplina, mas disciplina sem prazer, vira quartel - da mesma forma que prazer sem limites vira UTI. A moderação, antagonista de quem nunca se bateu com um tabuleiro de acarajé às seis da tarde, talvez seja menos um decreto e mais uma negociação permanente com a própria estultice: há quem negocie com elegância, comendo melhor durante a semana, caminhando sem fazer alarde, dormindo um pouco mais cedo, bebendo menos, fazendo exames sem transformar os resultados em curriculum vitae e recusando exageros sem virar fiscal do prato alheio. Essa gente existe, embora não pareça pois (tcharans!) não costumam propagandear a própria vida em redes sociais. O equilíbrio verdadeiro é discreto e sem legenda, provavelmente porque não serve à estética do “antes x depois”, do milagre da barriga perdida em 90 dias, do rosto chupado, da calça antiga erguida como troféu. Mas a vida - a vida MESMO - gosta de continuidade, e continuidade, bem… Não dá engajamento.
Quando finalmente desci da balança, a farmácia seguiu indiferente a meu pequeno julgamento adiposo de Nuremberg. Um rapaz comprava whey, uma senhora pedia remédio para diabetes e um menino, perto do caixa, se esgoelava pedindo à mãe chocolate (e uns catiripapos). E eu, com a imagem do peso imaculada em minha retina cansada, pensei que talvez devesse caminhar mais, beber menos, comer melhor e parar de tratar a escadaria na escola de minhas filhas como o Himalaia. Pensei também que, no fim de semana, faria um almoço pra família - e recusar uma farofa de banana com bacon e linguiça por obediência a uma tabela, seria um gesto extremo de covardia, dos que fazem o sujeito emagrecer por fora e apodrecer por dentro.
Saí de lá sem epifania (porque epifania é coisa de quem pode ter plano de saúde), com a convicção de que o corpo precisa ser cuidado, sem que nossas vidas sejam humilhadas no processo. Saúde que exige a destruição do prazer, da convivência, do humor, da mesa e da alegria talvez seja apenas outra forma de prisão ou adoecimento. Vou pedir um favor: se algum dia eu morrer com os índices em ordem, exames impecáveis e uma marmita de frango seco esperando na geladeira, peçam minha excomunhão ao Papa.
Prefiro seguir tentando a imperfeita conciliação entre zelo e feijoada, exame e torresmo, caminhada e cerveja, torcendo para que a balança, na próxima vez, tenha a compaixão de não estalar e ranger tanto.
Marcone H. de Sousa é baiano, cronista, acredita que o grande mal escondido por trás da I.A. é o absurdo uso que fazem da mesma como terapia, admite escrever pior que a mesma, mas já tinha 3 livros publicados quando o chatGPT ainda era só mato.
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