QUAL É A MÚSICA? #10
A anatomia de quem só se ajusta quando a melodia se alinha com o pensamento.
Enfadadíssimo leitor, entediadíssima leitora,
Não tenho a menor ideia sobre em qual dos dois espectros de existência as diletíssimas vossências se enquadram, mas me esforçarei para ser o mais escancaradamente didático possível, de tal forma que beire a condescendência e, portanto, identifiquem de forma madura e consciente quem são e onde estão. Preparados? Então, o seguinte é este:
Há gente que trata música como adorno, decoração sonora, trilha de fundo para disfarçar o desconforto da existência. É o sujeito que enfia uma playlist qualquer nos ouvidos pra acompanhar qualquer faxina, dieta, planilha, a corrida de meia hora na esteira, como se músicas fossem um papel higiênico: descartável e coadjuvante das obradas, nas quais empurramos mergulhadores retintos vaso adentro, convencidos de que silêncio é defeito de fábrica.
E há o outro bando: o dos insensatos incompreendidos, gente que interrompe a existência para ouvir um acorde, que transforma qualquer cômodo em foro íntimo ao apertar o play, que sabe que certas canções exigem álcool e reverência e cada verso possui pretensão à feitiçaria. Gente que sente a música, quase em oração pagã, método de realinhamento espiritual, quando o mundo já mandou desligar as luzes. São os que você encontra de olhos semicerrados, meneando a cabeça à Stevie Wonder, como se recebesse uma visita do além.
É nesse terreno que meu cunhado, e seu depauperado fígado, resolvem confundir quem não entende do riscado. Bêbado, ele se torna instável, e a sua instabilidade quase sempre vem após dois míseros copos. O problema é que ele é dedicado e insiste em sempre tomar o quinquagésimo oitavo, caso de estudo para toxicologistas mais afeitos à contabilidade que ao sentimento. Quando as músicas começam a verter, porém, alguma coisa o deixa em transe. Ele fica como na cena supracitada, espírito em inesperado prumo, como se aquele fosse o único idioma em que não lhe conseguem mentir. E, por mais que a embriaguez irrite os bedéis da sobriedade, também conheço o portal que se abre quando o álcool encontra os primeiros acordes e decide que a noite não vai acabar tão cedo.
Já perdi a conta das vezes em que um gole de cerveja me acertou o peito no instante em que “A Quoi Ça Sert L’amour?” recomeçava pela enésima vez, reorganizando tristeza com a autoridade de quem já viu muita miséria mais respeitável que a minha. Ou de quando “O que é que há?” resolve ribombar na Alexa, e o mel de Gal Costa adentra meus ouvidos como chave de fenda abrindo costela, desmontando uma por uma as certezas razoáveis que julgo ter. Ou de quando Serj Tankian, fúria de trincar azulejos, me puxa pela gola e pergunta “Why do they always send the poor?”. Música a tudo bagunça e a tudo ordena.
E certas letras ainda possuem a delicadeza cortante de uma navalha recém-afiada: melodias beijando e cuspindo, refrões se hospedando entre as vértebras feito pensionistas insolentes, pedindo mais um gole, mais um minuto acordado, mais um copo no corpo. Sem um pingo de rubor, admito que há ocasiões em que coloco “Conselho” do Almir Guineto só pra pensar no dia em que precisarei apresentar a letra disso às minhas filhas - a mais velha, já se encontra a meio do caminho. Música, sentida e não apenas consumida, é isso: um inquilino que você convida a entrar sabendo que vai redecorar teus móveis internos e, mesmo assim, você agradece e ainda pergunta se ficou faltando algo.
Talvez por isso me deprima um pouco essa mania de reduzir música a ruído de fundo, ASMR de atividades, como quem abre vídeo de chuva pra simular natureza enquanto futuca no celular à noite. Não vou fazer julgamento sobre a neurose alheia (mentira, vou sim), mas desconfio seriamente de gente que só precisa de música para tapar o buraco do silêncio, como se este não fosse, ele mesmo, um laudo médico. Trilha sonora passiva é diagnóstico. Música tem que ser protagonista, terapia sem diploma, confissão sem padre, temulência voluntária. O único antidepressivo que não precisa de receituário.
Eis a diferença entre viver e sobreviver: uns ouvem música para o tempo passar mais depressa, enquanto bate mais uma meta. Outros o fazem para que o tempo pare e nos encare, aceitando o convite ao naufrágio sabendo que, no fundo, no vazio cheio de som, se encontra o resto de mundo que ainda tem algum significado. Recordo meu amigo mergulhador, que morre de medo de mergulhar - não do oceano, em si, mas da tentação de paz que o oceano oferece, opondo-se à balbúrdia e contradições da superfície. Assistiram “Imensidão Azul”? Pois, então…
É na antagonicamente barulhenta embriaguez musical, que moram o resto de lucidez e calmaria de quem se permite ser atravessado, sem pedir recibo, sem playlist de produtividade, sem medo de nunca mais querer voltar.
Tivesse direito e essa seria minha escolha para deixar esse plano: num plácido, porém hercúleo porre, ouvindo Mercedes Sosa embalar a efemeridade da existência com “Volver a Los Diecisiete”.
E nem precisaria ser después de vivir un siglo.


