QUAL É A MÚSICA? #16
A decadência lírica da música popular da Bahia.
Dia desses, cometi a sandice de colocar duas letras de música baiana, uma ao lado da outra. Recomendo cautela com esse tipo de experiência: dependendo da idade do vivente, pode se lhe acometer azia, labirintite, siricotico e uma incontrolável compulsão por começar frases com “no meu tempo”, estágio imediatamente anterior à compra de alpercatas de couro e ao hábito de sentar-se na calçada, fim de tarde, a fiscalizar a vida alheia. Eeu, que já me encontro perigosamente próximo dos cinquenta e adquiri uma relação tóxica com o cardiologista, preciso ter cuidado com isso, senão, daqui a pouco estarei defendendo ficha telefônica, televisão de tubo e mercurocromo. Destarte, desde já, aquiete este seu escorregador de manjuba: não virei um insuportável saudosista - ainda. Minha juventude também teve episódios lastimáveis em quantidade suficiente para não ambicionar flashbacks - nem por um segundo.
O problema é que “teimoso” é meu primeiro nome - e “do caralho” o segundo: a primeira letra é a da música “Brilho Latente”, gravada pela banda baiana Laranja Mecânica, grupo que jamais chegaria à condição de estrela do firmamento axezístico, embora tenha circulado com relativo sucesso nos idos e malditos anos em que qualquer juntadão com uma guitarra, dois timbaus e dançarinos de calças coloridas conseguia subir em um trio elétrico. Pois a prosaica Laranja Mecânica cantava:
“Tens um brilho latente, incutido em teu ser
A cada amanhecer, tem volúpia no olhar...”
Depois, num acesso de ambição lírica (que hoje possivelmente exigiria autorização do MEC), largava o mel:
“Que a mulher é matriz da molécula força
E no seu orbital tem de se emancipar.”
Em tempos de indicações (no mínimo) questionáveis para ocupar as cadeiras da ABL, convém não se empolgar muito: “Brilho Latente” possui uns versos que, com quase quarenta anos de distância, dariam urticária numa mesa-redonda formada por feministas, linguistas e antropólogos. “Linda fêmea”, “corpo vitrine”, “dom de procriar”… Há material de sobra para promover uma mesa-redonda de cancelamento, mesmo que não haja qualquer justificativa para tal. Porque se perdemos a nossa capacidade de reconhecer a beleza e, por ela apenas, manifestar reconhecimento, já morremos como sociedade. Melhor que seja, então, como “laureada suprema, tenaz de beleza” - que, aliás, é dessas construções que o populacho ouvia e batia a biela, porque não queria passar recibo de jumento. Você aí, amável leitor(a), sabe o que vem a ser uma “molécula força”, e de qual tabela periódica a mesma foi retirada? Mas o cabra tentou - mesmo que isso me incomode pra caralho.
Explico: é que aquela banda, com muita generosidade, era no máximo da segunda prateleira da axé music, produzia entretenimento para avenida. E, mesmo assim, sentia que precisava passar alguma mensagem, quando cantava. Havia esforço, concepção, imagem, uma ralação vocabular mínima para transformar em música o que se queria expressar. O sujeito via uma mulher bonita, desejava-a, olhava a criatura requebrar e, em vez de simplesmente informar ao ouvinte em qual posição gostaria de escalavrar a chapeleta, tentava construir uma ideia em torno daquele corpo. Tinha volúpia, sexualidade, “movimento hipnótico”, “sorriso exótico” e “bailar sensual”. Tinha sacanagem - graças a Deus, porque Bahia sem putaria é tortura funesta, castigo ominoso, praticamente um Espírito Santo sem dendê.
E digo isso com a envergadura moral de quem já meteu um excerto chamado “Pornolirismo” e passou um considerável pedaço da vida a estragar respeitáveis músicas com versões de conteúdo genital, das mais inúteis habilidades que alguém pode ter, transformar quase qualquer termo da língua de Camões numa referência à cabeça do pau. Palavrões, portanto, estão absolvidos. Sacanagem, idem. Porque baixaria bem obrada, tem direito a habeas corpus e o cancioneiro popular brasileiro sempre soube disso: a gente passou séculos falando de sexo sem precisar entregar manual de instruções pra seu ninguém, já que a graça residia precisamente na nesga entre o dito e o não dito, que todo mundo havia entendido, mesmo que não fosse preciso desenhar a chibata no quadro.
Eis que, quatro décadas depois, deparo-me com “Toma de Quatro”, da banda “Ah, Chapa” (sic). Antes que algum douto em taxonomia rítmica atravesse a rua para corrigir-me, eu sei, não é Axé, é pagodão baiano. Mesmo com outra classificação, genealogia, ou raio que o parta, estou falando desse grande espaço da música popular festiva baiana que o axé ocupou durante décadas e que passou a dividir, herdar e disputar depois de seu ocaso comercial. Pois muito bem, digo, pois muito mal: “Toma de Quatro” começa com o eu lírico (chamemo-lo assim, em consideração aos estimados leitores e deleitantes leitoras) sendo submetido a uma série de perguntas feitas por uma mulher:
“Fica perguntando se eu sou Raul, se eu sou o Lekinho
Se eu sou ladrão, se eu sou o dono de paredão
Se tá liberado, se eu sou casado
Se eu tenho mansão, se eu sou negão
Tadafilado, estelionatário...”
Eis um fenômeno interessante, a música não descreve necessariamente uma realidade, mas despeja todas as senhas da mesma: paredão, mansão, tadalafila, estelionato. Cada palavra carrega sozinha o que se espera que o público reconheça ou almeje: dinheiro, virilidade, poder, malandragem, prestígio. Não precisa desenvolver nada porque o imaginário vem pronto, numerado, embalado, etiquetado - e vamos nós! A moça, porém, insiste em perguntar, e o bardo, evidentemente exaurido por tamanha investigação policialesca, indaga se ela trabalha no SAC. Admito ter caído na risada, a primeira vez que ouvi, a sacada é boa. O problema aparece a seguir.
A mulher pergunta demais e o homem resolve a quizumba com um: “Cala a boca, piranha!” oferecendo - ato contínuo - sua contribuição definitiva ao secular patrimônio poético da Bahia:
“Toma de quatro, toma de quatro, toma de quatro” repete, caso alguma limitação cognitiva impeça a compreensão inicial: “Toma de quatro, toma de quatro, toma de quatro” segue, pontualmente acompanhados de um “eita porra” para garantir que ninguém saia da experiência achando que participou de um sarau.
Foi quando voltei a “Brilho Latente”. Ouvi, li e reli que “no seu orbital tem de se emancipar”. Voltei ao “Ah, Chapa”: “Cala a boca, piranha.”
É. Só posso crer que algum filho da puta tenha invertido o elevador da existência, porque a gente entrou numa descendente do caralho. Num extremo, a mulher é “soberana”, “altiva”, deve “emancipar-se” e habita um orbital cuja explicação jaz indisponível a meus parcos conhecimentos de química. No outro, faz perguntas, recebe um “cala a boca, piranha” e é imediatamente encaminhada à posição ginecológica requerida. Levamos, pois, algumas décadas para sair da emancipação feminina e chegar ao empoderamento por submissão. E, creiam-me: tivesse “Brilho Latente” sido lançada recentemente, haveria radfems a rodo problematizando versos como “dança, ó, linda fêmea”.
Antes que m’acusem de conservadorismo (i)moral, reitero, mão sobre o peito, outra sobre o pau: não tenho porra nenhuma contra músicas que falem de sexo. Pode ter cu e buceta (beijo, Frota!)? Pode - inclusive, falar de tadalafila, desde que a letra seja mais interessante que a bula do remédio. Obscenidade e indecência jamais atestaram pobreza artística - au contraire. Nelson Rodrigues fez carreira mostrando que a família brasileira guarda mais putaria sob as toalhas de mesa que muito lupanar luxurioso. Gregório de Matos já esculhambava meio mundo séculos antes de a Bahia inventar pagodão, e duvido que algum sacerdote tenha chiado quando o Boca do Inferno metia o verbo onde o decoro mandava esconder.
A pornosofia sempre rendeu possibilidades infindas, portanto. O problema começa quando o baixo calão é tudo que resta, quando a putaria perde vocabulário. Isso, sim, me parece uma insustentável tragédia baiana, porque somos um povo historicamente habilidoso na arte de dizer safadezas por caminhos mis. Baiano não manda ninguém se fuder a esmo: há entonação, contexto, afetos e, dependendo do lugar, prosódia envolvida. “Porra” pode ser xingamento, chamamento, declaração amorosa ou apupo de arquibancada. Tudo depende do olho, do beiço e do volume - lá ele.
Assim, fazer sacanagem sem inventividade na Bahia é um imenso desperdício de patrimônio imaterial. Porque malícia, a gente sempre teve, só que malícia demanda massa cinzenta: malícia requer espaço para o outro completar a sacanagem por si. Quem por paternalista escancara, peca justamente pela incapacidade de sugestão. É a diferença entre a sedução e o waze da chupetcheca.
Talvez eu esteja mesmo ficando velho - aceito a crítica. Há, inclusive, amplas e materiais provas desse meu processo de idosificação: durmo mais cedo, minhas costas fazem barulhos outrora restritos às dobradiças do meu velho guarda-roupas e sinto genuína alegria por não estar em uma festa às onze da noite. Faço mea culpa. A outra metade, contudo, devolvo, porque envelhecer não escancara as razões para a transformação diante dos meus olhos - e ouvidos, e encéfalo...
A Laranja Mecânica também fazia música comercial. Também precisava de refrão, queria tocar no rádio, botar o povo para dançar... Ninguém estava trancado numa cabana no Capão, fumando um mato, lendo Rimbaud e compondo para a posteridade. Era música popular, de festa, com todas as limitações e grandeza que isso, dicotomicamente, podia trazer.
Ainda assim, alguém sentou para escrever “arabesco de mana de um corpo vitrine”. Você entendeu? Nem eu - mas ele quis dizer algo e há uma diferença monumental aí, que costuma ser varrida para debaixo do tapete por uma conversa que me irrita profundamente, que é a falsa ideia de que exigir critério estético, em música popular seja alguma espécie de elitismo.
Oras, vão procurar um jegue viúvo e vasectomizado, lote de desocupado! Elitismo é imaginar que pobre precisa ser poupado de crítica, é supor que, por ser da periferia, qualquer produto cultural deva automaticamente receber imunidade estética, porque analisar sua qualidade seria uma forma de opressão - pasme você. Assim, tratamos o artista popular como um indigente intelectual, a quem devemos bater palminhas por rabiscos incoerentes e ainda chamamos essa idiotice condescendente de “respeito” e “inclusão”.
Respeito é levar a cultura popular a sério o suficiente para dizer quando ela é genial ou quando produziu uma valente merda. O samba nunca precisou de tutela para ser grande. O ijexá nunca pediu licença à UFBA. A música negra baiana produziu sofisticação rítmica, religiosa, linguística e política em ambientes onde faltava quase tudo - exceto criatividade. Destarte, não me venham atribuir indigência lírica a classe social, escolaridade ou origem periférica, porque esse argumento, além de preguiçoso, rescende a um racismo paternalista que nem litros de alfazema conseguem esconder.
Pobre sabe fazer poesia. Preto sabe fazer poesia. Periferia sabe fazer poesia. Analfabeto, idem - Patativa as esfregou até a morte na cara dos idiotas. A problemática aqui é de outra (des)ordem: n’algum ponto da estrada, a indústria descobriu que a poesia era desnecessária. Talvez até atrapalhe, porque a atenção precisa ser sequestrada rapidamente, antes que o polegar deslize a tela, à cata da próxima violação auditiva. O refrão tem poucos segundos para adentrar o quengo, a dancinha precisa caber num vídeo curto. Complexidade tem custo, e num ambiente onde ninguém consegue assistir a trinta segundos de nada sem ter vontade de saber o que acontece no próximo feed, tempo passou a ser um artigo de luxo.
A música deixou-se de edificante e passou a deficiente. “Toma de quatro” é uma ordem de controle remoto. E, para além de qualquer discussão sobre gosto musical, o que me agride à vera é que a ausência de linguagem também empobreceu a imaginação.
Veja o homem dessa canção: ele precisa ter mansão, ser temido. Precisa estar sexualmente pronto - ainda que farmacologicamente. A mulher, por sua vez, precisa… Calar a boca. Pronto: habemus romance! Romeu tadafilou (sic), Julieta perdeu um ou dois incisivos porque abriu a boca. Sorte deu Shakespeare, que morreu sem ver isso.
Evidentemente, uma única música não explica uma geração ou gênero. Seria burrice e preconceito de minha parte com uma cena inteira. Há criatividade circulando, músicos extraordinários e sempre vai ter alguém fazendo coisa boa por aí, como sói ocorrer desde que o primeiro Homo baianiensis bateu duas pedras nas mãos e berrou “Eu falei, Faraó!”. A comparação dessas letras, porém, oferece uma fotografia incômoda, especialmente porque, para retratar o que é “bom”, escolhi uma banda sem aura nenhuma. Não foi Caetano, Gil ou Gerônimo. Não foi preciso chamar medalhões para humilhar o adversário. Foi a Laranja Mecânica, uma banda que passou longe de pleitear o Olimpo dos grandes e que, ainda assim, julgava necessário falar em “volúpia”, “arabesco”, “matriz”, “molécula”, “orbital”, “emancipar”. Quarenta anos depois, o sujeito toma tadalafila e manda a mulher ficar de quatro. Eis o pior sintoma: até a sacanagem perdeu erudição.
Antes, o compositor dava uma volta do caralho para chegar no corpo: meneava metáforas, rebuscava verbetes e arriscava um vocabulário que podia inclusive dar errado. Havia uma espécie de educação do desejo, esse negócio de olhar, insinuar, fantasiar, elaborar a própria vontade antes de simplesmente metê-la para fora - e para dentro, compassadamente, todo um mise en scène performático, qual ave-do-paraíso. Agora, chega-se ao corpo alheio sem trecho, conversa, sedução ou mistério algum.
Em “Brilho Latente”, no meio de toda a cafonice cósmico-reprodutiva, a mulher precisava emancipar-se. Mas era chamada a dançar, tinha brilho, movimento e soberania. Décadas mais tarde, a emancipação acabou: restou à mulher, digo, à piranha obedecer. E calada.
Marcone H. de Sousa é baiano, cronista, acredita que o grande mal escondido por trás da I.A. é o absurdo uso que fazem da mesma como terapia, admite escrever pior que a mesma, mas já tinha 3 livros publicados quando o chatGPT ainda era só mato.
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